segunda-feira, maio 10, 2010
Quer casar comigo?
Ele estava na dele.
Quando ela ligou, queria conversar.
Na voz dela, antes comedida, uma aflição inédita.
Ela costumava ser alegre, era muitas, como todos, mas agora do outro lado da linha alguém que sofria, alguém que precisava dele.
E como tinham o pacto, prontamente atendeu, entendeu e foi vê-la.
Ela era uma ex, daquelas que a gente não supera, ex de muitos anos atrás, quando ela tinha menos de 20, e ele 3 casamentos nas costas.
E e diziam um para o outro, espere você crescer mais, eu te amo, tu me amas. Mas viva um pouco mais.
E e brincavam, quando você dobrar os 30, a gente se casa.
Durante a década, viviam se encontrando, às vezes amigos, às vezes se amando, sempre se ajudando, conselhos, cura, passeando, uma amizade-amor.
Até trepavam.
E era sempre a mesma sorte, o tesão de sempre, aquele corpo de que eram íntimos, que veneravam, trepavam rindo, gozavam gargalhado.
Então, ela propos, acabei uma relação, estou com 30 anos, e aí, casa comigo, please, casa, vai, casa, casa?
Ele na dele, por opção, riu, será?
Pensou, mas então é agora? Calculou, não era para ser apenas uma amizade-amor? Não seria melhor assim? Assim é bom? Riu, sorriu, pensou, como cartas embaralhadas, viu fotogramas do futuro, nós na mesma casa, acordando num domingo, cozinhando, num Réveillon, em Natal, bebendo num boteco, na cama assistindo à TV à tarde, nós. Trepando quase todas as noites. Nela grávida ao meu lado.
E respondeu: “Só se for para sempre!”
Ela pulou de alegria, avisou à família, contou pros amigos, fez planos.
Ele ficou eufórico, claro, por que não, eu a amo, ela me ama!
Passaram a semana juntos.
No outro fim de semana, ela sumiu.
Na outra semana, disse que estava triste, que procurou o ex para consolá-la, e ele ia morar com ela.
E ainda ficou irritada: “Como você acha que eu ia te namorar, se eu estava triste, terminando uma relação séria, sim, você me beijou, trepamos, foi gostoso, mas eu estava carente.”
Mulheres…
quarta-feira, julho 29, 2009
Cinema de autor?

"Há 7 elementos cruciais na feitura de um filme, por ordem alfabética: o ator, o câmera, o desenhista de produção, o diretor, o montador, o produtor e o roteirista."
"Peter Benchley lê um artigo de jornal sobre um pescador que capturou um tubarão de 2.500Kg na costa de Long Island, e fica se perguntando o que aconteceria se o tubarão achasse ali um bom lugar para morar. Aí vai e escreve um romance sobre o assunto. Zanuck-Brown compram os direitos de filmagem desse livro. Benchley e Carl Gottlieb o transformam num roteiro. Bill Butler é contratado para fazer a fotografia. Joseph Alves Jr., para o desenho de produção; Verna Fields, para a montagem; e, talvez mais importante do que tudo, Bob Mattey é tirado de sua aposentadoria para construir o monstro. E John Williams compõe aquele que talvez seja seu mais memorável score. Bem, em nome de quê Steven Spielberg pode ser o autor do filme? Mas, quando se fala do filme, fal,a-se de 'Tubarão, de Steven Spielberg'."
Este exemplo de como as coisas funcionam no cinema, talvez seja o cerne principal do livro "Adventures in The Screen Trade" (1984), do escritor e roteirista William Goldman. Alguns podem dizer que escreve em nome de uma causa própria, já que ele próprio é uma grande "vítima" da ditatorial Teoria do Autor, alguns exemplos mais notórios: Butch Cassidy, um filme de George Roy Hill; All the president's Men, um filme de Alan J. Pakula; Marathon Man, um filme de John Schlesinger... Embora Goldman seja roteirista de todos e, como é comum no cinema americano, entrou em cada um desses projetos muito antes do diretor sequer ser escolhido, nunca ficou vinculado ao sucesso da obra final.
Goldman relembra uma entrevista de Godard alguns anos antes, onde admite que ele e Truffaut nunca acreditaram de verdade naquela história do autor, e só a inventaram para chamar atenção sobre si próprios e infernizar a vida dos veteranos do cinema francês, cujo lugar pretendiam ocupar (e de fato ocuparam). Por fim, Goldman lamenta a retumbante vitória da teoria do autor pois já há vários anos jão nem se fala mais nela. Não é mais preciso. Para a mídia e para o público, o diretor é o único e verdadeiro autor, mesmo que estreante e solidamente imaturo.
Leitura essencial para apreciadores da arte cinematográfica.
terça-feira, julho 14, 2009
Queda da Bastilha, 220 anos.
A Liberdade Guiando o Povo, quadro de Eugéne Delacroix que representa a Revolução Francesadomingo, fevereiro 01, 2009
A/C Dra. Rodrigues.
Há algum tempo adquiri esse livro, mas apenas recentemente empreendi uma leitura mais engajada no "História da Civilização - Parte 5 - A Renascença", de Will Durant, e tem sido um deleite página a página, algo que as grandes obras sempre proporcionam, aliás, também por esse aspecto conquistaram o rótulo de grandeza.O livro começa pelo período do papado de Leão X (1513-1521), que, sobretudo, foi um paladino dos artistas, um grande incentivador das grandes obras. Sob sua influência, Roma tornou-se o coração palpitante da cultura européia, o epicentro para onde alfuíam artistas, letrados, poetas e homens de espírito livre em geral. Oportunamente, poderei distender um pouco mais sobre esse e outros fascinantes capítulos da história da renascença, mas no momento atenho-me à uma específica parte do capítulo seguinte ao de Leão X, intitulado 'A Revolta dos Intelectuais', sub-capítulo III, que discorre sobre o desenvolvimento da medicina naquele período.
Recentemente, num agradável colóquio com uma amiga médica, falávamos sobre alguns aspectos das transformações ocorridas na medicina nas últimas décadas: avanços tecnológicos, proliferação de cursos, banalização da relação médico-paciente, sobrecarga de trabalho e a decadência da figura do profissional no atual status quo, de maneira a ser pertinente e divertida a comparação.
Na Renascença, os médicos receberam grande parcela da nova riqueza da Itália, vindo a ser uma classe de grande influência política. Petrarca, sentindo sua posição e seus benefícios ameaçados, denunciou, cheio de indignação, os altos honorários dos médicos, e a ostentação descabida de "seus mantos escarlates e capuzes enfeitados de arminho, seus anéis ofuscantes e esporas de ouro", e enviou uma carta ao enfermo papa Clemente VI, para que se precavesse contra eles:
Sei que vosso leito está cercado de doutores, e isso naturalmente me causa temor. Suas opiniões estão sempre em choque umas com as outras, e aquele que nada tem a dizer de novo passa pelo vexame de se ver numa situação inferior aos demais. Como o disse Plínio, eles negociam com as nossas vidas a fim de criarem um nome para si através de alguma novidade. No tocante a eles - o que se não dá com outras profissões - basta chamarem-se médicos para que se acreditem em tudo que dizem; no entanto, uma mentira do médico encerra mais um perigo que a de qualquer outra pessoa. Somente uma doce esperança é que não nos faz pensar nessa situação. Eles aprendem a sua profissão à nossa custa. Até a nossa morte lhes fornece experiência. Somente o médico é que tem o direito de matar com impunidade. Ó bondosíssimo Pai, considerai essa bando como um exército de inimigos! Lembrai-vos da advertência num epitáfio que um homem infeliz mandou gravar em seu túmulo: "Morri vitimado por muitos médicos."
quarta-feira, outubro 29, 2008
Boa iniciativa e bom programa.
Este ano, a programação da Expo Literária está recheada de diversos nomes de personalidades com visibilidade nacional e de escritores da cidade que completam o repertório de atrações. Mário Prata, Gabriel Pensador, Arnaldo Antunes e Ziraldo, entre outros de grande participação na fomentação cultural farão palestras. Divididas em três tendas (Machado de Assis, Dom Casmurro e Iaiá Garcia), a mostra reunirá nada menos do que 48 atrações entre bate-papo com escritores, contação de histórias, palestras e recreações.
A mostra, que valoriza e incentiva a leitura entre crianças e adolescentes, acontece na Biblioteca Municipal. A abertura oficial do evento acontece no dia 29, às 19h, com a presença do consultor e professor Fernando Dolabela, com a palestra “Aprendendo e Empreendendo”.
A Expo-Literária homenageará os cem anos de nascimento de Machado de Assis. Com a instalação de tendas, espaços para exibição de filmes e shows, a Biblioteca Municipal irá dispor de várias opções para o visitante conferir as novidades literárias e interagir com os autores convidados. O evento reunirá também escritores locais.
PROGRAMAÇÃO COMPLETA
sexta-feira, abril 18, 2008
Separação
PEDIDO DE AMOR
Cuide de nós, meu amor.
(...)
Cuide de nosso amor,
antúrio, avenca, samambaia,
Polvilhe teus elegantes dedos
nas primaveras das plantas de nossas casas.
Essas que existem na minha e na tua rua,
e essa perene que brilha entre as duas.
Aquela primavera-cigana que se estabelece nas estações,
se instala em todas as pousadas, quartos e cafundós,
se espalha em todos os chalés
e vai do hotel aeroporto, passa na Broadway, Cabo Verde,
Canadá, até o reino de Itaúnas.
Cuide comigo das nossas dunas
onde brincam e crescem nossos meninos,
para que vença o amor,
para que triunfe o melhor sentimento.
Porque não é de vento nossa estrada,
embora voe.
Nem é de mentira nossa dor,
embora perdoe.
REBANHO PERDIDO NO PARAÍSO
Sem você a vida não é que seja exatamente ruim,
mas é que fica manca e puxa de uma perna toda beleza.
Então é surda ela de um ouvido
ou, o que não duvido, é cega dos óio.
(...)
Eu choro, por dentro, nas confeitarias,
choro nos balcões de caldo de cana e também nos balcões de poesia.
Tantos perdões te ofereci,
muitas compreensões te ofertei,
canções que cantei sem alarde nos banheiros em seu nome!
Tolerâncias-rebanho pus no altar de nossas oferendas
e agora, passeiam sem agendas nossos sonhos.
Gados sem vaqueiro percorrem o escuro do pasto.
Lá vão eles, são nossas doces quimeras.
Ovelhas sem rumo, porteira sem tramela.
Ninguém avisou a elas que podia ser de precipício o próximo passo.
Também pudera,
ovelhas pensam que o guia é certo como o sol, ele mesmo, o astro.
segunda-feira, abril 07, 2008
Kafka em HQ
Não houve apenas um trabalho de adaptação de contos em "Desista! E Outras Histórias de Franz Kafka". (Conrad, R$ 22, 64 págs.). Ocorreu também um processo de transcriação das narrativas surreais do escritor tcheco.O norte-americano Peter Kuper, autor da adaptação, traduziu em imagens o tom absurdo das situações criadas por Kafka (1883-1924).
Trata-se, evidentemente, de uma leitura pessoal dele mostrada na forma de imagens.
No conto "Desista!", destacado no título e na capa do álbum, um homem atrasado pergunta a um policial "qual é o caminho". Acuado, ouve um sonoro "desista!" como resposta.
O atraso do homem é caracterizado com um relógio num dos olhos. A atitude agressiva do policial é simbolizada com um cano de revólver no lugar do nariz.
É esse o tom das nove histórias da obra, ora mais acentuado, ora menos. Imagem e texto procuram se harmonizar por meio dos toques surreais.
O resultado é um incômodo, muitas vezes acentuado pela crítica à condição humana.
Talvez o caso mais contundente desse desconforto seja "Um Artista da Fome", o mais longo do álbum (dez páginas).
Um jejuador profissional, que se apresenta em público, começa a perder o interesse da platéia. Tenta se apresentar num circo, mas a cena se repete.
Como de costume numa obra kafkiana, a situação em si dá margem a mais de uma leitura. Mas qualquer interpretação esbarra num certo desconforto.
Os nove contos do álbum –escritos por Kafka nas duas primeiras décadas do século 20- não são o primeiro passeio de Kuper pelo mundo kafkiano.
Ele adaptou também "A Metamorfose", trabalho feito após "Desista!".
A versão dele para o romance foi lançada pela Conrad em 2004.
Foi um bom negócio para a editora. A obra foi incluída no PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola), do governo federal.
O programa compra obras literárias e em quadrinhos e as distribui a escolas do ensino fundamental. Resultado: a obra esgotou.
"Desista!", assim como outras adaptações literárias que vêm sendo produzidas, tem tudo para seguir o mesmo caminho. Melhor garantir antes que o governo a descubra
quarta-feira, outubro 24, 2007
Pessoa's
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.
(Fernando Pessoa)